Sempre me senti diferente das outras raparigas desde a infância. Não sabia explicar em que é que era diferente ao certo mas sentia-me assim. Não me sentia tão feminina, tinha uma maneira de vestir e de estar diferente da delas. Para mim, justificava isso com a educação que tive. Os meus pais não são propriamente um casal tradicional nem conservador e a sua maneira de estar, já por si, causa algum impacto. Talvez por isso nunca tenha levado muito a peito o facto de me sentir diferente. Até que tive as minhas primeiras experiências sexuais e percebi que, realmente, não era, de todo, igual às minhas amigas. Contudo eu reprimi essas diferenças. Não era capaz de me aceitar a mim própria. No fundo tinha receio da rejeição dos meus pais e de estragar o bom relacionamento que tinha com eles.
A minha saída do armário só aconteceu graças à ajuda do meu melhor amigo. Já éramos amigos desde miúdos mas só ao fim de alguns anos (eu com 20 e ele com 19) é que ele me contou que ia deixar a namorada e assumir a sua homossexualidade. Para mim foi uma lufada de ar fresco, poder finalmente falar com alguém sobre algo que me atormentava desde tenra idade. Também eu tive alguns relacionamentos com pessoas do sexo oposto mas nunca me senti completa. Até ter tido a minha primeira experiência homossexual. Foi uma libertação. Mas a minha liberdade só foi completa quando contei aos meus pais. A princípio a minha mãe ficou um pouco confusa porque até então eu só tinha tido namorados. Mas o meu pai já desconfiava visto que nunca escondi que frequentava sítios gay com o meu melhor amigo. Aos poucos foram aceitando e para mim é a única coisa que me importa para me sentir livre e bem comigo própria.
Claro que há sempre batalhas a travar diariamente. O simples facto de andar de mão dada com a minha namorada na rua, por vezes, é uma aventura. Já ouvimos comentários desagradáveis para além dos piropos comuns.
Querer casar e ter filhos ainda é um sonho utópico mas acredito que, aos poucos, a lei vai ficar do nosso lado. Somos cidadãos iguais aos outros, com deveres e direitos.