A tarde vai avançada. Entro na sala onde Luís e Paulo, sentados no sofá de cervejas na mão, assistem ao Mundial de Boxe e comentam entusiasmados. Uma certeza invade-me o pensamento: esta não é a vida que quero nem para mim, nem para o rebento que trago no ventre, vou fazer as malas e partir em busca do nosso futuro.
Passaram já três semanas desde que me instalei na nova casa. Entro no café bar, directa ao balcão onde me sento e peço uma bebida. As paredes, de um tom verde muito suave, realçam os desenhos a carvão ali expostos. Paisagens, rostos, corpos de mulheres nuas entrelaçados e ela lá está, sentada a meu lado, recta como uma tábua, sorvendo da taça um néctar de vinho branco e eu, qual oferenda dos Deuses, ali estou como um fruto pronto para ser colhido.
Não se faz rogada. Falamos por breves momentos e logo descobrimos uma certa cumplicidade, agendamos um encontro para essa noite.
Índia de sangue mestiço nova-iorquino, chapéu de coco caqui na cabeça, blaser a condizer, justo e curto, apenas acima da cintura, calças de ganga castanhas, botas e um charme irresistível. Tinha desenhado aquelas formas que agora estavam expostas ali mesmo. Deixo-me encantar pela magia dos seus traços e logo me apaixono.
Esta noite tenho um encontro. Sinto-me tão mulher. Tomo um duche e visto-me para sair, coloco lápis nos olhos, apenas uma sombra e batom vermelho escuro. Por fim, perfume. Estou confiante.
Chegamos ao restaurante vegetariano já tarde. Apressamo-nos a pedir. Os sabores exóticos dos pratos deixam adivinhar uma longa noite de descobertas de nós duas.
Seguimos a pé para casa dela, a uns quarteirões dali. O Outono apenas chegou e o ar que se faz sentir, ainda é o de Verão. Apetece-me dar-lhe a mão. Ela corresponde. Entramos num prédio antigo. O soalho de madeira range à entrada da porta, uma vez, duas vezes, pronto, já passámos. Agora todos os vizinhos sabem que somos duas e que entramos no primeiro esquerdo. Passo directo da entrada para o quarto, não há tempo para preliminares. A cama desfeita no chão, parece-me perfeita. O meu discernimento começa a ficar turvo, embriagado pelos cheiros que se apoderam do quarto. Aromas e sabores, explosão de sensações e cores.
A tua pele macia, fina, o teu calor. Procuras beijar-me e em troca ofereço-te o meu corpo, somos duas. Vejo a tua expressão mudar vezes sem conta entre o desejo de entrares em mim e os orgasmos que te fazem estremecer. Quando me tocas, sabendo da outra vida que cresce em mim, é mágico. O teu olhar dá-me tudo o que necessito nesse momento. Procuras fotografar-me com os teus olhos redondos, percorres o meu corpo, o meu ventre, buscando as curvas femininas, devorando-me. Sei que me estás a desenhar por dentro.
Envia-nos a tua história para editorial@ovelharosa.com
A rubrica Pais e Filhos é actualizada à segunda-feira
|